PSD de braços no ar

Um dos temas principais na última semana na política portuguesa foi o desafio de Luís Montenegro a Rui Rio para convocar eleições para a liderança do PSD.
Claro que problemas no PSD são boas noticias para António Costa, mas no fundo, em termos de oposição, não mudou grande coisa em relação aos últimos meses. Foi só mais uma semana em que o principal partido da oposição fez menos oposição ao Governo do que os parceiros do Governo.
Rui Rio não quis responder directamente ao desafio de Montenegro (que só pelo nome tinha que ser dado à rebeldia), e usou o esquema institucional mais tipicamente português: a infindável burocracia. Rio decidiu resolver a coisa através de uma moção de confiança no Conselho Nacional (o órgão do PSD que está ali a meio caminho entre o Congresso e a Comissão Política Nacional). Uma moção de confiança neste contexto é basicamente o líder do Partido a perguntar às pessoas eleitas na sua lista se ainda gostam dele (e se gostavam de ser deputados no próximo mandato).
O desafio de Montenegro parecia condenado à partida, pelo que foi necessário arranjar outros motivos de interesse para essa reunião.
Os primeiros foram o local e hora escolhidos para a reunião: no Porto, às 17 horas de uma quinta-feira. É possível que Rui Rio, nortenho convicto, se tenha esquecido que a Assembleia da República fica em Lisboa. Ou também é possível que, não sendo deputado, se tenha esquecido que há trabalho parlamentar de segunda a sexta. Mas na verdade, directa ou indirectamente, acabou por ser uma prova de devoção dos parlamentares: valorizam mais os assuntos do Partido ou do País?
A resposta pode chocar-vos: mais de metade do grupo parlamentar do PSD preferiu faltar à Assembleia da República.
Mas o tema mais quente da semana do PSD surgiu durante a reunião: como é que deve ser votada a moção de confiança? De braço no ar ou com voto secreto?
Os defensores de Rio defendiam o voto de braço no ar, em nome da transparência. O PSD mais uma vez na vanguarda da democracia: qualquer democracia saudável que se preze não precisa de voto secreto para nada.
Claro que a votação, além de transparente, tinha outra virtude. Os apoiantes de Rio já tinham a listinha provisória de deputados impressa e tudo, a caneta pronta, e era só começar a riscar nomes.
A questão acabou decidida da forma mais lógica: através de uma votação. De braço no ar. Fez-se uma votação de braço no ar, para saber se a votação da moção de confiança devia ser de braço no ar. Só foi pena a democracia interna no PSD não ter ido um bocadinho mais longe. Podia-se perfeitamente ter feito uma votação de braço no ar para decidir o método de votação da decisão sobre o método de votação da moção de confiança. É por esta falta de atenção ao detalhe que os Portugueses cada vez confiam menos nos partidos…
No fim, Rio ganhou a moção de confiança. E, segundo os apoiantes, tanto de Rio como de Montenegro, ganhou o PSD. É possível que sim. Acredito que o desafio de Montenegro à liderança do PSD possa ter produzido um efeito interessante em Rui Rio: talvez tenha finalmente percebido que é ele o líder do PSD.
