Quem tem medo da crise política?

Estamos a 3 semanas das eleições europeias, e como os nossos partidos devem ter achado que se estava a falar demasiado de temas europeus, eis que surge um tema a centrar todas as atenções na política nacional: o “descongelamento” da carreira dos professores e a ameaça de crise política.
Numa situação praticamente inédita, o PSD e o CDS votaram em conjunto com o Bloco e o PCP a favor do direito dos professores a verem contabilizados os 9 anos, 4 meses e 2 dias congelados. (Se o ensino de Matemática em Portugal é mau, claramente é pela falta de rigor e precisão dos professores; esqueceram-se de ter em consideração as horas e os minutos). Desta forma, os partidos foram todos contra a pretensão do Governo, e o PSD e CDS aproveitaram para apoiar o seu grande amigo Mário Nogueira.
E quando é que será pago esse descongelamento? Não sabemos.
O que os partidos dizem é basicamente o seguinte:
– Os professores têm direito a receber os 9A4M2D? Têm!
– Já? Não!
– Então quando? Não sabemos, temos que ver depois.
– Será ainda no século XXI? Talvez, mas não nos podemos comprometer com isso.
Face a esta posição contrária às suas pretensões, o que faz o Governo? Aquilo que qualquer Governo responsável faz, uma birra. Sim senhor, que vivemos numa república parlamentarista e respeitamos muito o Parlamento, mas é quando este aprova as leis do Governo. Toda a gente sabe que os deputados não estão a ser pagos para pensar pelas suas cabeças e para ter ideias próprias.
E então António Costa ameaçou que, se a proposta for aprovada na votação final, se demite. Uma eventual demissão do Governo teria consequências verdadeiramente dramáticas para Portugal, porque assim teríamos eleições legislativas em Julho em vez de Outubro. E toda a gente sabe que o pior que se pode fazer a um português é estragar um potencialmente óptimo Domingo de praia.
Segundo António Costa, o Governo não está disposto a governar com o peso orçamental adicional e não previsto que esta medida acarreta. E é por isso que apresentam a demissão.
Mas, tendo em conta que não é de esperar que o PS se recuse a concorrer às eventuais eleições antecipadas, suponho que esse peso orçamental inesperado só será um problema nesta legislatura. Se o PS ganhar as próximas eleições, que se lixem os 800 milhões de euros.
Naturalmente que, associada a esta ameaça, surgem também críticas ferozes do PS à oposição. E naturalmente também, a ferocidade não é uniformemente distribuída. Como seria de esperar, os grandes vilões desta história são o PSD e o CDS. Para António Costa, os partidos da direita foram incoerentes aos desrespeitarem o princípio da responsabilidade orçamental. Já os parceiros da Gerigonça apenas revelaram coerência.
É refrescante ver um Primeiro Ministro a ser tão sincero. No fundo, o que António Costa está a dizer ao país é que o PSD e o CDS normalmente são partidos responsáveis, e mostra alguma natural desilusão com a irresponsabilidade mostrada neste caso.
Já o PCP e o Bloco foram coerentes ao serem tão irresponsáveis como de costume. E, no entanto, é com eles que o PS quer continuar a governar.
Para António Costa é mais importante a coerência do que a responsabilidade. Ficamos a saber que se formos em direcção ao abismo, o importante é irmos bem a direito e sem fazer ziguezagues.
