Uns são filhos de ministro, outros são enteados

Hoje em dia, a desigualdade é um tema recorrente quando se abordam os males da sociedade. Desigualdade de género, de raça, desigualdade económica, entre outras. Há, no entanto, uma outra desigualdade que não costuma merecer tanta atenção mediática, mas que eu acho que devia.
Falo, claro está, da desigualdade politico-hereditária. Caso não estejam familiarizados com o termo que acabei de inventar, refiro-me ao facto pouco abordado de que os filhos de políticos não têm todos a mesma sorte na vida.
Por um lado, temos aqueles que nasceram com mérito. O melhor exemplo será o de Mariana Vieira da Silva, a filha do Ministro do Trabalho recentemente promovida a Ministra da Presidência. Quando algumas pessoas mais cépticas desconfiaram de um eventual nepotismo, logo surgiu o Governo a assegurar que não, e que a nomeação era única e exclusivamente fruto do mérito.
Ainda assim, a algumas pessoas mesquinhas não bastou que o Governo acusado de nepotismo negasse o dito nepotismo – pessoas que claramente não acreditam numa verdadeira meritocracia. Mas também esses tiveram direito a resposta, de numerosos apreciadores do trabalho de Mariana. Várias pessoas acima de qualquer suspeita, que habitualmente são extremamente atentas a qualquer vislumbre de favorecimentos ou influências indevidas na política Portuguesa, logo vieram assegurar que desta vez não se tratava de nada disso. Que conheciam muito bem o trabalho de Mariana Vieira da Silva, e que merecia inquestionavelmente estar no Governo. Fiquei agradavelmente surpreendido por perceber que tanta gente acompanha de perto o trabalho dos adjuntos de ministro. Lamentavelmente José Sócrates, uma figura de grande prestígio que seria importante ter ouvido defender o trabalho de Mariana (que trabalhou no seu gabinete), não o fez.
Ainda assim ficámos todos bem esclarecidos. Impedir Mariana Vieira da Silva de aceder ao seu direito inalienável de ser Ministra, apenas por ser filha de quem é, seria uma terrível descriminação.
Do lado oposto do espectro, temos um bom exemplo em Pedrogão Grande. Valdemar Alves, o esmerado autarca, chamou a si a tarefa de encontrar quem coordenasse o gabinete de coordenação dos apoios às vítimas dos incêndios. Após aturada pesquisa, a sua escolha recaiu em Telmo Alves, tendo como assistente Joana Guedes. Em nome do seu inegável mérito, Valdemar desvalorizou um pequeno inconveniente nos seus CVs – Telmo é filho de Valdemar e Joana é filha da sua vice-presidente.
Lamentavelmente, os velhos do Restelo do costume logo viram aqui novamente um favorecimento imoral. E é aqui que a sua história difere da de Mariana. Consultados os especialistas em meritocracia e relações familiares, nenhum se quis chegar à frente para garantir os méritos de Telmo Alves. Não apareceu um único a garantir que conhecia aprofundadamente o trajecto anterior de Telmo e de Joana. E assim ficaram sozinhos a arder nas fogueiras do ódio da opinião pública.
E assim, de 2 percursos tão semelhantes, se criam 2 histórias tão diferentes: Mariana, a Heroína; Telmo, o Vilão. Tudo porque, na hora de suportar o terrível fardo de ter um pai político de destaque, ninguém ajudou Telmo a aguentar a carga.
E sim, temos que concluir que a Telmo faltou mérito – o mérito de conseguir melhores e mais famosos amigos.
